Eu Maior – Entrevista com Rubem Alves

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Planejamento de vida…

Uma vez um aluno me pediu uma entrevista, chegou à minha casa e me fez essa pergunta: “Como é que o senhor se preparou… como é que o senhor planejou a sua vida, para chegar aonde o senhor chegou?”. Eu percebi logo que ele me admirava, queria seguir meu caminho, queria o mapa do caminho, e eu disse a ele: “Eu cheguei aonde cheguei porque tudo que planejei deu errado”. E é a pura verdade! Então, sou escritor por acidente. Já fui outras coisas, já fui professor de filosofia, já fui teólogo, já fui pastor. Agora, sou um velho.

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As muitas definições da felicidade…

Estava conversando com uma amiga e ela me contou o seguinte: “O Rubem, eu agora, até pouco tempo, fazia uma promessa – um trato com Deus – que eu daria um ano de minha vida pra ele se ele me desse de volta uma das noites na minha casa. Porque de noite lá em casa, o fogão aceso, o fogão de lenha, a gente na cozinha, estava o pai, estava à mãe, tinha pipoca… e a mãe falava: ‘Eu vou lá fora pegar umas folhas de laranja pra fazer um chá pra nós’. E toda noite o meu pai dizia pra ela: ‘Mulher, você vai ficar estuporada’… toda noite… e ela nunca ficou estuporada. Isso pra mim é parte do céu. E eu acho – ela disse –, que cada um tem o seu céu diferente. Que o que a gente quer no céu não é coisa diferente, a gente quer é recuperar a felicidade efêmera que a gente teve em algum momento. Portanto, cada pessoa tem uma felicidade diferente”.

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A ostra e a pérola…

Ostra faz pérolas. Mas não é toda ostra que faz pérolas, só a ostra que sofre. Por quê? Porque a ostra para produzir a pérola tem de ter um grão de areia, tem de ter uma coisa que a irrite. E ela vai produzir a pérola pra deixar de sofrer. Para que aquele ponto agudo cortante seja envolvido por uma coisa lisinha, que é a pérola.

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As minhas pérolas…

Em muitas das minhas histórias eu fui a ostra que produziu a pérola, que eu tinha um grão de areia que cortava. Eu me lembro de um dia, seis horas da manhã, minha filha de três anos de idade – eu dormindo –, ela chegou ao quarto, me acordou, eu dormindo ainda olhei pra ela, “O que é Raquel?”. Ela disse, “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudade?”. Aiii, doeu demais, foi uma… que pergunta, que grão de areia terrível, pontudo: “Pai, quando você morrer, você vai sentir saudade?!”. Eu não sabia o que dizer pra ela e nunca imaginei que uma criança de três anos fosse dizer uma coisa assim. Eu fiquei mudo, ela disse, “não chora não que eu vou te abraçar”.

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… Aí eu tive de escrever uma história.

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Eu Maior – Entrevista com Rubem Alves

 

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