Vamos Amar

“Quando a gente ama é claro que a gente cuida”.

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Parece tão bonita essa verdade que Caetano Veloso cantou. Mas não é bem assim. Tem um nó nesta história que precisamos desatar.

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Amar é diferente de cuidar. Amar é diferente de amor. Amor é um sentimento.

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Fácil sentir, impossível definir sem que falte algo. Definir amor é um ato subjetivo e por isso sempre controverso e não consensual.

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Distante das discussões teóricas foi cantado e proseado desde sempre de Luís de Camões:

“Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer.”

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A Dama Bete (rapper luso-moçambicana):

“Nunca ouvi falar de amor sem um lágrima derramada. Não são apenas palavras bonitas de um poema É um sentimento complexo, difícil de perceber. Segundo Platão, perigosa doença mental; segundo Ghandi, a força mais sutil do mundo.”

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Desatando o nó:

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Amar, diferente de amor, é um verbo, uma ação, uma atitude.

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Em tempos de amar contemporâneo, precisamos desamarrar amar de cuidar.

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Amar é estar com o outro em sua dignidade, no direito à sua singularidade e às suas escolhas de formas de vida.

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Amar acontece em uma história construída que, com o tempo, vai além da atração física, passando para uma preocupação com o bem-estar do outro para o seu próprio bem-estar, com cumplicidade, intimidade e companheirismo.

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Amar gera uma influência mútua, no qual a (in) felicidade de um causa a (in) felicidade do outro.

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O cuidar aparece, mas não é o tema da história. É situacional, quando for necessário. Um não tem que fazer algo sempre pelo outro. O bom é estar com o outro.

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Quando amarramos amar com cuidar, a paisagem muda..

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O cuidar é continuo. Aqui, quem ama cuida como Caetano cantou.

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Os cuidadores querem colonizar um ao outro, não aceitando suas singularidades. As motivações partem de pensamentos amorosos, mas desqualificadores: eu sei e posso ensinar para ele. Eu sei o que é melhor para ela. Eu sei mais do que ele. E nesta hierarquização de competências, quem pode mais, quem sabe mais, quem é mais forte, cuida do outro. O conflito é inevitável porque como saberemos o que é melhor para o outro? Reina a paz enquanto um cuida e o outro aceita e ambos se deleitam com essa hierarquia.

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O conflito se instala quando os cuidandos crescem, e começam a lutar por igualdade e divisão de poder. Os cuidadores, por outro lado, não vão abrir mão de um espaço conquistado e iniciam a luta para continuar no controle.

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Outro itinerário do conflito é quando os cuidadores cansam e se irritam com as desobediências dos cuidandos e iniciam caminhos sem volta.

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Por amar desta forma, cuidam. Para manter o cuidado, controlam. E este controle que cansa ambos, vai virar pressão, violência psicológica, violência verbal e física.

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E não será mais possível avistar o sentido original de amar. Ele transformou-se em violência e conjugou amar com sofrimento.

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Cena final:

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Os cuidadores definidos como os vilões da história, sem entender nada, seguem sozinhos com seus sentimentos de incompreensão, raiva e abandono profundo.

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E os cuidandos? Eles seguem procurando outros pares complementares, ou então com um pouco mais de empenho, cresceram e estão hoje em relações igualitárias.

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Escolha o enredo para você caminhar na sua história de amar.

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Se o caminho não está agradando, transforme-o. Use seus personagens internos.

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Você pode ser o autor, que ao mesmo tempo dirige você como ator em sua vida.

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Proponho outra melodia:

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“Só há amor quando não existe nenhuma autoridade”. Raul Seixas

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Por  Telma Lenzi

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